O The Economist, um dos mais famosos jornais de economia do mundo (e que eu acompanho sempre), faz constantemente debates onde alguns dos principais pensadores da atualidade lançam uma assertiva, que é rebatida por um outro pensador do mesmo quilate, deixando a possibilidade de seus leitores não só votarem se concordam ou não com a assertiva como também de comentarem os argumentos do proponente e do opositor. E o debate tem vários "rounds", dando a oportunidade dos argumentos serem rebatidos e reavaliados ao longo do mês.
O atual debate tem a sua assertiva proposta por Ha-Joon Chang, uma das minhas principais influências na dissertação. A sua proposta é "Uma boa base de manufatura é o principal daterminante do sucesso de uma economia nacional". Contra essa assertiva, se coloca um nome de peso: Jagdish Bhagwati, autor do livro "Em Defesa da Globalização". Como se pode imaginar, não se poderia encontrar dois nomes mais contrários em suas posições.
Como sempre visito o The Economist, como discuto política industrial e como sigo o Chang onde ele estiver, não poderia deixar de participar desse debate. Abaixo segue o link para o debate, o principais pontos levantados no primeiro round e a minha humilde contribuição:
http://www.economist.com/debate/debates/overview/207
Introdução do mediador: Patrick Lane
1. Tema antigo, que voltou a tona após a crise econômica de 2008;
2. Tragédia anunciada pela ênfase atual nas finanças e não na indústria. São exemplos da ênfase em finanças os EUA e a Inglaterra (seriamente atingidas pela crise) e como exemplos de ênfase em indústria a Alemanha e a China (mais capazes de suportar a crise);
3. Como argumentação contrária, dá-se exemplo do Japão (ênfase em indústria, mas estagnado há 20 anos) e da Índia (que cresce com foco em serviços e não em produção);
4. Numa perspectiva mais ampla do que os anos marcados pela crise de 2008, o crescimento econômico era demarcado justamente pela participação cada vez maior dos serviços e menor da indústria no PIB, e isso vinha mostrando bons resultados. Além disso, hoje as pessoas não compram só os produtos em si, mas tudo que envolve esse produto, inclusive os serviços vinculados a ele. Assim, manufatura e serviços não são substitutos e sim complementos;]
Pro-Manufatura – Ha-Joon Chang
1. O tamanho e a competitividade da base produtiva é o maior determinante da prosperidade de um país;
2. Se Suíça e Singapura são citados como países que cresceram com base nos serviços, Chang mostra que os dois são países com altas taxas de valor agregado de manufatura per capita. Já um país como a Austrália de fato é desenvolvido, porém graças aos seus vastos recursos naturais, o que não é um atributo de todos os países. Para esses, que são a maioria, uma base de manufatura substancial e produtiva é condição necessária para um bom padrão de vida.
3. A possibilidade do desenvolvimento da economia levar a uma economia pós-industrial ou desindustrializada refere-se apenas a diminuição da força de trabalho empregada na manufatura. Mesmo nos países mais desenvolvidos, a produção e o consumo continuam fortemente baseados na manufatura.
4. Se os dados de gastos apontam para um maior gasto com serviços é devido ao aumento dos preços desses em relação à diminuição, pelos avanços de produtividade, dos preços dos manufaturados.
5. Muitos dos serviços que estão em crescimento, aumentando o peso desse setor na economia, na verdade tem como principal consumidor empresas manufatureiras. Portanto, o seu crescimento não reflete uma superação da base manufatureira, mas sim a vitalidade desta base.
6. No caso dos serviços financeiros, o crescimento desse setor foi feito com base em inovações que, mais do que diminuir, escondem os riscos do mercado, o que se pode verificar no desfecho que levou à crise de 2008. Inclusive, a crise tem como conseqüência reduzir a taxa de crescimento do setor financeiro.
7. Se considerarmos que a desindustrialização é resultado de um setor de serviços mais dinâmico (que tire investimentos do setor industrial, mas em prol de uma rentabilidade maior no setor de serviços), isso não necessariamente significará uma coisa boa para o país, uma vez que os serviços que estariam alimentando esse crescimento não são, em sua maioria, exportáveis e assim o país poderia ter problemas na sua balança de pagamentos, em função da falta de divisas para a balancear as importações de uma economia em ascensão;
8. Mesmo alguns serviços exportáveis de alto nível, como os serviços bancários prestados por Inglaterra e Estados Unidos não conseguem representar uma fatia maior do que o déficit de importação de manufaturados desses países.
9. Além disso, uma base manufatureira forte permite a vários serviços ligados ao setor produtivo (engenharia, design, etc) um estímulo também para o seu avanço. Por via inversa, um enfraquecimento da base manufatureira provoca um enfraquecimento dos serviços exportáveis ligados a essa base.
10. Finalmente, não se trata de uma visão onde a manufatura é boa e os serviços são maus, mas sim de reconhecer que a manufatura vem sendo desvalorizada atualmente, apesar ser ter sido a base do desenvolvimento material da humanidade e de, ao que tudo indica, continuar nessa posição por u bom tempo.
Contra-Manufatura – Jagdish Bhagwati
1. Coube a Bill Emmot chamar de “fetiche da manufatura” o entendimento de que se você não fabrica alguma coisa que você pode cair no seu pé, então não vale a pena fabricá-las.
2. Esse entendimento tem um pedigree famoso: Adam Smith condena o trabalho de músicos, artistas, etc em favor do trabalho produtivo (ainda que numa fábrica de alfinetes).
3. Outro defensor da importância crucial da manufatura foi Kaldor, que alertava para os perigos da desindustrialização da Inglaterra nos anos 60.
4. Mais recentemente (1987), John Zysman e Stephen Cohen também defenderam a tese de que “a manufatura importa”.
5. Por fim, o último fôlego do fetiche da manufatura veio após a crise financeira de 2008, onde os serviços fora taxados de “vilões” da história e a manufatura seria a grande rendentora.
6. Duas questões são colocadas contra esse fetiche da manufatura: 1) os serviços podem ser inovadores também (pesquisas como a de Dale Jorgenson, de Harvard, provam que o varejo é o setor que mais progride na economia); 2) a manufatura já é fortemente apoiada, com subsídios, financiamentos e uma luta entre os estados para atrair fábricas. Nada disso é feito para o setor de serviços. Assim, para que ainda mais apoio para um setor já tão apoiado?
Minha contribuição:
"Dear House,
Congratulations for the debate's initiative. It’s a very important question, with experts in both sides. Dr. Chang has a major influence in my actual research about brazilian Industrial Policy during the Lula’s first years. The Bhagwati's book, “In Defense of Globalization” (2004), is a brave speech against the tide of anti-globalism. At the first round, I had to agree with Mr. Chang about the need of a manufacturing base to a sucessful country. Despite the exceptions (Australia, Japan, etc) that only prove the rule, the importance of “make things that you can touch” has been hidden by the digital economy, virtual money or any other funny name that we can give to numerics tricks like derivatives and other gifts from Pandora’s box. Brazil’s economy (that was pointed as “overheated” in recent article at this journal) could be put in the same category of Australia in terms of wealth of resources. But without a manufacturing base, these resources will continue to be used much more to make rich countries even more richer than us. The actual wave of demand from China became the agribusiness and commodities traders much more stronger than never. This strength, if can’t stop the public policies (after 20 years, a new Industrial Policy was launched by president Lula), can redirect its practical effects. So, public investiments continues concentrated on industries like mining (Vale), foods (BRF) and even supermarkets (the new R$ 4 billions' project envolving the fusion between Pão de Açucar and Carrefour), while the strategic sectors pointed by the new industrial policy (software, semiconductors, remedies and machinery) still is only on paper. Switch the main economic engine of any country is a hard task in any circunstances. When we are talking about one of the largest economies in the world and one of the hottest at the moment (perhaps “overheated”, like said the cited article above), the task become even more difficult. Like we uses to say “is necessary to change the tire with the car running”. To keep position on world economy, and most important, to avoid the inertia of a economy on natural resources, Brazil needs to increase and diversify its manufacturing base, following the Chang’s arguments."
Este espaço foi criado em função do processo de elaboração da minha dissertação de mestrado, entitulada: "Condições e Limites do Neodesenvolvimentismo no Brasil: um olhar a partir da Política Industrial da Era Lula (2003-2010)." Assim, criei o NBR como um espaço mais amplo para as discussões sobre as estratégias de desenvolvimento do país. Sejam bem vindos!
segunda-feira, 4 de julho de 2011
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Notícia junho 01 - Regulação do Sistema Financeiro (Brookings Institution, 14/06/2011)
Interessante artigo sobre o "Dodds/Frank Act", ato de regulação do sistema financeiro, assinado no ano passado pelo presidente americano Barack Obama, após as "lições" da crise econômica de 2008. Segue o link para o artigo :
http://www.brookings.edu/testimony/2011/0614_too_big_to_fail_barr.aspx
Abaixo estão os principais pontos do artigo, na minha concepção:
1) O artigo traça um quadro das mudanças impostas pelo Ato Dodds/Frank de regulação do mercado financeiro, assinado por Obama em 2010.
2) Começa com uma condenação explícita da auto-regulação do mercado financeiro.
3) Afirma que a evolução do mercado financeiro gerou novos produtos para os quais a regulação financeira americana não havia sido desenhada, dai a sua ineficiência em prever seus riscos.
4) Durante a crise de 2008, o governo americano teve que injetar bilhões de dólares no seu sistema bancário.
5) Uma vez estabilizada a economia, os passos seguintes seriam restaurar a disciplina no sistema financeiro, a proteção aos consumidores e investidores e a habilidade do mercado de gerar crescimento econômico de longo prazo.
6) Em 2010, Obama assina o Ato Dodds/Frank, o mais rigoroso ato de regulação da economia desde o New Deal dos anos 1930. Esse ato contém diversos mecanismos que buscam não só dar maior transparência ao mercado financeiro como ser adaptável às mudanças que constituem uma das características desse mercado.
7) Uma das principais mudanças diz respeito ao tratamento dos bancos de investimento, que era bem menos rigoroso do que o dos bancos comerciais. Com o ato Dodds/Frank, todas as instituições financeiras – independente da forma legal – serão rigorosamente supervisionadas.
8) Outro ponto importante é o tratamento dado ao mercado de derivativos, considerado altamente responsável pela crise de 2008 justamente por não estar sob o controle da regulação estatal. Com o ato Dodds/Frank, o mercado de derivativos foi tirado das “sombras” e colocado sob pesada vigilância.
9) Outra mudança é o tratamento dado às chamadas “grande demais para quebrar”, ou seja, aquelas empresas cujo peso e a interconectividade é tão grande que a sua falência desequilibraria todo o sistema; daí a certeza delas de que, caso isso acontecesse, o governo faria o que fosse necessário para salvá-las, estimulando assim que elas corressem ainda mais riscos. Depois do Ato Dodds/Frank, o governo ganha mais poderes para lidar com a falência desse tipo de empresa fora do regime padrão de falências. Neste, o interesse é proteger os credores, enquanto no novo regime, o interesse é proteger o sistema econômico. Assim, torna-se possível reter o patrimônio da empresa falida, sem contaminar o sistema como um todo.
10) Reconhece-se que a questão financeira é uma questão global e, portanto, para que todas essas salvaguardas criadas pelo Ato Dodds/Frank possam funcionar, é fundamental a cooperação das autoridades financeiras de outros países, de modo a que as finanças operadas globalmente possam ser reguladas globalmente. Tem papel importante nesse processo o Comitê da Basiléia e o G-20, que já emitiu resolução sobre o assunto.
A discussão do artigo retoma um tema dos mais clássicos no campo da economia política: a linha tênue que separa segurança pública e lucro privado. Entenda-se segurança pública não como caso de polícia (o que às vezes é também), mas como segurança da coletividade, ou seja, de todos aqueles que se servem do sistema econômica (numa economia capitalista, "todos" é todos mesmos), enquanto que lucro privado dispensa explicações. Fato é que sempre que há uma grande crise econômica, como foi em 1929, mas também em 1987 (com o Outubro Negro de Wall Street), alerta-se para a necessidade de regulamentação das operações financeiras, maior transparência, etc. Ou seja, a balança pende para a segurança coletiva. Com o passar do tempo e a falta de novas crises, esses mesmos mecanismos de salvaguarda, tão exigidos anteriormente, passam a ser visto como empecilhos, amarras que estão tirando a competitividade das empresas do país e está fazendo com que este, através de seus investidores, lucre menos do que deveria. Desta vez, a balança pende para o lado do lucro privado. Até a próxima crise e assim sucesivamente.
Sem querer ser pessimista diante do Dodds/Frank Act e dos esforços do Comitê da Basiléia e do G-20, a tendência histórica é que, se não ocorrerem novas crises, já, já os mecanismos criados serão abandonados em nome do Deus-Mercado (o mesmo deus que, anos antes, havia mostrado seus pés de barro).
http://www.brookings.edu/testimony/2011/0614_too_big_to_fail_barr.aspx
Abaixo estão os principais pontos do artigo, na minha concepção:
1) O artigo traça um quadro das mudanças impostas pelo Ato Dodds/Frank de regulação do mercado financeiro, assinado por Obama em 2010.
2) Começa com uma condenação explícita da auto-regulação do mercado financeiro.
3) Afirma que a evolução do mercado financeiro gerou novos produtos para os quais a regulação financeira americana não havia sido desenhada, dai a sua ineficiência em prever seus riscos.
4) Durante a crise de 2008, o governo americano teve que injetar bilhões de dólares no seu sistema bancário.
5) Uma vez estabilizada a economia, os passos seguintes seriam restaurar a disciplina no sistema financeiro, a proteção aos consumidores e investidores e a habilidade do mercado de gerar crescimento econômico de longo prazo.
6) Em 2010, Obama assina o Ato Dodds/Frank, o mais rigoroso ato de regulação da economia desde o New Deal dos anos 1930. Esse ato contém diversos mecanismos que buscam não só dar maior transparência ao mercado financeiro como ser adaptável às mudanças que constituem uma das características desse mercado.
7) Uma das principais mudanças diz respeito ao tratamento dos bancos de investimento, que era bem menos rigoroso do que o dos bancos comerciais. Com o ato Dodds/Frank, todas as instituições financeiras – independente da forma legal – serão rigorosamente supervisionadas.
8) Outro ponto importante é o tratamento dado ao mercado de derivativos, considerado altamente responsável pela crise de 2008 justamente por não estar sob o controle da regulação estatal. Com o ato Dodds/Frank, o mercado de derivativos foi tirado das “sombras” e colocado sob pesada vigilância.
9) Outra mudança é o tratamento dado às chamadas “grande demais para quebrar”, ou seja, aquelas empresas cujo peso e a interconectividade é tão grande que a sua falência desequilibraria todo o sistema; daí a certeza delas de que, caso isso acontecesse, o governo faria o que fosse necessário para salvá-las, estimulando assim que elas corressem ainda mais riscos. Depois do Ato Dodds/Frank, o governo ganha mais poderes para lidar com a falência desse tipo de empresa fora do regime padrão de falências. Neste, o interesse é proteger os credores, enquanto no novo regime, o interesse é proteger o sistema econômico. Assim, torna-se possível reter o patrimônio da empresa falida, sem contaminar o sistema como um todo.
10) Reconhece-se que a questão financeira é uma questão global e, portanto, para que todas essas salvaguardas criadas pelo Ato Dodds/Frank possam funcionar, é fundamental a cooperação das autoridades financeiras de outros países, de modo a que as finanças operadas globalmente possam ser reguladas globalmente. Tem papel importante nesse processo o Comitê da Basiléia e o G-20, que já emitiu resolução sobre o assunto.
A discussão do artigo retoma um tema dos mais clássicos no campo da economia política: a linha tênue que separa segurança pública e lucro privado. Entenda-se segurança pública não como caso de polícia (o que às vezes é também), mas como segurança da coletividade, ou seja, de todos aqueles que se servem do sistema econômica (numa economia capitalista, "todos" é todos mesmos), enquanto que lucro privado dispensa explicações. Fato é que sempre que há uma grande crise econômica, como foi em 1929, mas também em 1987 (com o Outubro Negro de Wall Street), alerta-se para a necessidade de regulamentação das operações financeiras, maior transparência, etc. Ou seja, a balança pende para a segurança coletiva. Com o passar do tempo e a falta de novas crises, esses mesmos mecanismos de salvaguarda, tão exigidos anteriormente, passam a ser visto como empecilhos, amarras que estão tirando a competitividade das empresas do país e está fazendo com que este, através de seus investidores, lucre menos do que deveria. Desta vez, a balança pende para o lado do lucro privado. Até a próxima crise e assim sucesivamente.
Sem querer ser pessimista diante do Dodds/Frank Act e dos esforços do Comitê da Basiléia e do G-20, a tendência histórica é que, se não ocorrerem novas crises, já, já os mecanismos criados serão abandonados em nome do Deus-Mercado (o mesmo deus que, anos antes, havia mostrado seus pés de barro).
sábado, 28 de maio de 2011
Notícia de Maio 01 (27/05/2011) - Valor Econômico - Brasil é o N. 1 em Private Equity.
Após longo esforço para fechar a revisão do projeto de pesquisa para apresentação na matéria "Seminários de Pesquisa" (com vários acréscimos em relação ao projeto original, que logo estarão aqui no formato de artigos), voltou a acionar o radar para as notícias que interessam para as nossas discussões sobre neodesenvolvimentismo, política industrial e assuntos afins.
Uma notícia me chamou atenção nessa volta. Publicada no jornal Valor Econômico do dia 27 de maio, o texto do professor de economia Javier Santiso fala sobre um estudo feito pela Empea/Coller Capital, divulgado em abril de 2011, que aponta o Brasil como destino preferencial dos investimentos de capital de risco. Segue link da matéria:
https://conteudoclippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/5/27/brasil-destrona-a-china
Os detalhes da matéria podem ser lidos ai. Alguns elementos me chamaram atenção. Primeiro, os investimentos destacados de Venture Capital, ou seja, aqueles investimentos voltados para empresas novas, sem as quais as Microsofts e Apples da vida nunca teriam saído da garagem. O ponto aqui é que esse tipo de investimento não reforça a base tradicional da nossa matriz econômica (focada em commodities e bens de baixo valor agregado), mas vai em sentido contrário, ou seja, em empresas novas, voltadas para novos mercados, principalmente ligadas às novas tecnologias. São citadas como empresas que receberam aportes desses fundos de risco as seguintes: Buscapé e Submarino (essa, uma das poucas a negociar ações na Bovespa). Assim, apesar do foco no capitalismo selvagem e no lucro alto, esses investimentos não deixam de ser um fôlego extra para os brazucas que querem surfar na onda das empresas.com.
Em contraste, a matéria também mostra que os fundos de capital de investimento locais também tem crescido, porém com baixos investimentos em empresas "start-up" (embrionárias) no setor de tecnologia. Ao que consta, os investidores nacionais reforçam a nossa matriz econômica conservadora, preferindo aplicar seu dinheiro em setores mais tradicionais.
Por fim, a nota dissonante do clima otimista do texto, que destaca o fato do Brasil ter superado a China como principal destino desse tipo de investimento, é a comparação feita com Israel em matéria de empresas "start-up" no setor tecnológico. Só um indicador da nossa defasagem nesse campo: o Brasil ainda não tem nenhum empresa cotada na NASDAQ enquanto Israel tem 60! Ou seja, o caminho é longo até nos tornarmos uma potência também em matéria de tecnologia e não só de frango congelado e minério de ferro.
Resumida a matéria, é impressionante que em momento algum haja qualquer menção ao papel da política industrial na condução desse lugar privilegiado do Brasil no cenário do Venture Capital global. Impressiona que, ao falar da atratividade das empresas .com brasileiras para esse tipo de capital internacional, nada seja mencionado sobre o apoio do governo a essas empresas ou sobre a regulamentação sobre o mercado de capitais de modo a otimizar a atração dos mesmos para o Brasil.
Nesse ponto, é interessante comparar esse texto do Santiso com um texto anterior, publicado quando da divulgação do estudo, em abril, que enfoca mais as explicações do porquê o Brasil superou a China na atratividade desse tipo de capital. Segue o link da matéria:
http://www.bzplan.bz/pt/noticias/42-fundos-de-investimento/149-brasil-assume-primeiro-lugar-em-private-equity
Segundo esse texto, o principal motivo do Brasil ter superado a China nesse setor foi o encarecimento dos negócios de "Private Equity", ou seja, a compra de uma empresa promissora para sua venda posterior. Esse encarecimento deveu-se (ai é o ponto que eu quero destacar em termos de atuação do Estado) à regulamentação desse tipo de negócio por parte do governo Chinês, que, após o comprovado sucesso desse tipo de negociação nos anos anteriores, decidiu favorecer os fundos denominados em yuans. Ou seja, favorecer os fundos locais e não mais os fundos estrangeiros, que tiveram que reposicionar os seus dutos de dinheiro para outros mercados emergentes. Nesse redirecionamento, o Brasil assumiu fatias importantes antes destinadas a países do Leste Europeu e da Rússsia. No "acumulado", passou, em volume de investimentos, os antigos "queridinhos" China e Índia.
Outros fatores trazidos pelo artigo como motivações para o belo posicionamento brasileiro são: as perspectivas de crescimento da economia brasileira, a baixa competitividade nos setores médios e baixos da economia (excluindo, portanto, os setores dominados por gigantes globais) e, outro ponto bastante divulgado por nomes como Barack Obama quando compara o Brasil e a China (países citados recentemente em visita do presidente americano à Grão-Bretanha): a estabilidade política, apontado como fator de risco por apenas 3% dos entrevistados, contra 63% no caso da Rússia, 24% da China e 11% da Índia. Nunca os sólidos pilares democráticos reconstruídos a partir de 1985 foram tão valiosos.
Essa duas matérias dão novas mostras da fase ascendente da economia brasileira. É mais dinheiro vindo para o país e, no caso dos Venture Capital, sendo investido em setores ligados às áreas tecnológicas. Porém, tanto nesta quanto na matéria anterior, ficou patente, pelo menos na visão dos autores dos textos, a ausência do Estado brasileiro como tributário desse avanço. Acredito que para me posicionar aqui, eu precisaria investigar exatamente as ações governamentais (se é que elas existiram) para fomentar a atração de Venture Capital e Private Equity para o Brasil. Porém, seria no mínimo intrigante descobrir que um movimento significativo de entrada de capitais como este (mais de US$ 3,5 bilhões em 2010), bem como uma posição privilegiada em relação aos outros países emergentes, especialmente a China, passou desapercebido pelos promotores da política industrial, tecnológica e de comércio exterior, seja para colherem os louros das suas ações, sejam para implementar medidas de ampliação desse fenêmeno.
Uma notícia me chamou atenção nessa volta. Publicada no jornal Valor Econômico do dia 27 de maio, o texto do professor de economia Javier Santiso fala sobre um estudo feito pela Empea/Coller Capital, divulgado em abril de 2011, que aponta o Brasil como destino preferencial dos investimentos de capital de risco. Segue link da matéria:
https://conteudoclippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/5/27/brasil-destrona-a-china
Os detalhes da matéria podem ser lidos ai. Alguns elementos me chamaram atenção. Primeiro, os investimentos destacados de Venture Capital, ou seja, aqueles investimentos voltados para empresas novas, sem as quais as Microsofts e Apples da vida nunca teriam saído da garagem. O ponto aqui é que esse tipo de investimento não reforça a base tradicional da nossa matriz econômica (focada em commodities e bens de baixo valor agregado), mas vai em sentido contrário, ou seja, em empresas novas, voltadas para novos mercados, principalmente ligadas às novas tecnologias. São citadas como empresas que receberam aportes desses fundos de risco as seguintes: Buscapé e Submarino (essa, uma das poucas a negociar ações na Bovespa). Assim, apesar do foco no capitalismo selvagem e no lucro alto, esses investimentos não deixam de ser um fôlego extra para os brazucas que querem surfar na onda das empresas.com.
Em contraste, a matéria também mostra que os fundos de capital de investimento locais também tem crescido, porém com baixos investimentos em empresas "start-up" (embrionárias) no setor de tecnologia. Ao que consta, os investidores nacionais reforçam a nossa matriz econômica conservadora, preferindo aplicar seu dinheiro em setores mais tradicionais.
Por fim, a nota dissonante do clima otimista do texto, que destaca o fato do Brasil ter superado a China como principal destino desse tipo de investimento, é a comparação feita com Israel em matéria de empresas "start-up" no setor tecnológico. Só um indicador da nossa defasagem nesse campo: o Brasil ainda não tem nenhum empresa cotada na NASDAQ enquanto Israel tem 60! Ou seja, o caminho é longo até nos tornarmos uma potência também em matéria de tecnologia e não só de frango congelado e minério de ferro.
Resumida a matéria, é impressionante que em momento algum haja qualquer menção ao papel da política industrial na condução desse lugar privilegiado do Brasil no cenário do Venture Capital global. Impressiona que, ao falar da atratividade das empresas .com brasileiras para esse tipo de capital internacional, nada seja mencionado sobre o apoio do governo a essas empresas ou sobre a regulamentação sobre o mercado de capitais de modo a otimizar a atração dos mesmos para o Brasil.
Nesse ponto, é interessante comparar esse texto do Santiso com um texto anterior, publicado quando da divulgação do estudo, em abril, que enfoca mais as explicações do porquê o Brasil superou a China na atratividade desse tipo de capital. Segue o link da matéria:
http://www.bzplan.bz/pt/noticias/42-fundos-de-investimento/149-brasil-assume-primeiro-lugar-em-private-equity
Segundo esse texto, o principal motivo do Brasil ter superado a China nesse setor foi o encarecimento dos negócios de "Private Equity", ou seja, a compra de uma empresa promissora para sua venda posterior. Esse encarecimento deveu-se (ai é o ponto que eu quero destacar em termos de atuação do Estado) à regulamentação desse tipo de negócio por parte do governo Chinês, que, após o comprovado sucesso desse tipo de negociação nos anos anteriores, decidiu favorecer os fundos denominados em yuans. Ou seja, favorecer os fundos locais e não mais os fundos estrangeiros, que tiveram que reposicionar os seus dutos de dinheiro para outros mercados emergentes. Nesse redirecionamento, o Brasil assumiu fatias importantes antes destinadas a países do Leste Europeu e da Rússsia. No "acumulado", passou, em volume de investimentos, os antigos "queridinhos" China e Índia.
Outros fatores trazidos pelo artigo como motivações para o belo posicionamento brasileiro são: as perspectivas de crescimento da economia brasileira, a baixa competitividade nos setores médios e baixos da economia (excluindo, portanto, os setores dominados por gigantes globais) e, outro ponto bastante divulgado por nomes como Barack Obama quando compara o Brasil e a China (países citados recentemente em visita do presidente americano à Grão-Bretanha): a estabilidade política, apontado como fator de risco por apenas 3% dos entrevistados, contra 63% no caso da Rússia, 24% da China e 11% da Índia. Nunca os sólidos pilares democráticos reconstruídos a partir de 1985 foram tão valiosos.
Essa duas matérias dão novas mostras da fase ascendente da economia brasileira. É mais dinheiro vindo para o país e, no caso dos Venture Capital, sendo investido em setores ligados às áreas tecnológicas. Porém, tanto nesta quanto na matéria anterior, ficou patente, pelo menos na visão dos autores dos textos, a ausência do Estado brasileiro como tributário desse avanço. Acredito que para me posicionar aqui, eu precisaria investigar exatamente as ações governamentais (se é que elas existiram) para fomentar a atração de Venture Capital e Private Equity para o Brasil. Porém, seria no mínimo intrigante descobrir que um movimento significativo de entrada de capitais como este (mais de US$ 3,5 bilhões em 2010), bem como uma posição privilegiada em relação aos outros países emergentes, especialmente a China, passou desapercebido pelos promotores da política industrial, tecnológica e de comércio exterior, seja para colherem os louros das suas ações, sejam para implementar medidas de ampliação desse fenêmeno.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Notícias de Abril 01 - Financial Times (11/04/2011) aponta a tutoria da China na PI brasileira
Vi várias notícias nesses primeiros dias de abril, mas nenhuma que tenha tanto impacto a ponto de parar para escrever no NBR (sem contar as atividades do projeto - já, já tem texto novo especificamente sobre conceito e histórico da PI). A que teve e que merece algumas palavras aqui, até porque o tema é recorrente no blog, foi a substituição do presidente da Vale, Roger Agnelli por Murilo Ferreira, na esteira das divergências entre ele o governo que já vínhamos comentando (ver Notícias de Março). Porém, deixarei para comentar aqui porque também tem a ver. A notícia que me chamou atenção foi um comentário do Ricardo Setti, colunista da Veja, sobre uma notícia do Financial Times (11/04/2011). Nesta notícia, o FT aponta que a viagem da presidenta Dilma Rousseff serviria, além de estreitar os vínculos econômicos entre Brasil e China, duas potências emergidas (em termos econômicos, não há o que se discutir mais: 7ª e 2ª economias do mundo), para que a presidenta conhecesse mais de perto o modelo de capitalismo de Estado empreendido na China, especialmente (e ai é o que nos interessa mais) quanto ao desenho da política industrial. Abaixo segue os links da matéria do FT e o comentário de Setti: http://www.ft.com/cms/s/0/1f82a382-646a-11e0-a69a-00144feab49a.html#axzz1JbluGjkh http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/dilma-foi-a-china-para-observar-modelo-chines-de-conduzir-o-empresariado-diz-financial-times-o-caso-vale-faz-temer-que-sim/ Rapidamente sobre as repercussões de Setti, o tom é obviamente de reprovação à suspeita levantada pelo FT sobre a tentativa de aproximação entre o modelo estatista chinês e o desenho da PI brasileira. Como mostra dessa reprovação, Setti condena a intervenção do governo na Vale, justamente no episódio da substituição de Agnelli por Ferreira. Cabe pontuar que aqui Setti esquece de mencionar que a própria matéria do FT, jornal que ele mesmo afirma ser "muito bem informado", aponta a indicação do Murilo Ferreira como um ponto positivo da condução de Rousseff, uma vez que ela não influenciou na escolha de um marionete político, como se poderia esperar, mas sim um executivo respeitado. Outro ponto do comentário de Setti que vale a pena levantar como prova de percepção distorcida é a idéia de que não é um bom sinal "o governo fazer e acontecer numa empresa privada". Um pequeno detalhe igualmente esquecido por Setti é mencionar que o governo integra o bloco de controle da Vale, seja diretamente (através do BNDES) seja indiretamente através da PREVI. Ou seja, o que Setti vê como "invasão de privacidade" é mais uma "briga de família". Assim, a não ser que se admita o velho arranjo neoliberal onde o governo participa apenas para injetar dinheiro quando a racionalidade substancial derrapa (as conhecidas falhas de mercado), o governo participa do bloco de controle da Vale justamente para influenciar na condução da sua estratégia e não apenas para servir cafezinho durante as reuniões do conselho administrativo da empresa. Sem fugir muito ao campo ideológico de Setti, Miriam Leitão, da Globo, ao comentar a noticia da troca de comando da Vale, foi mais comedida e afirmou que é legítimo o governo, enquanto sócio, influenciar no comando da empresa. O erro aqui foi mais de forma que de conteúdo. Na visão dela, essa influência deveria ter acontecido no âmbito do conselho administrativo e não via declarações públicas repercutidas em horário nobre. Porém, fica a pergunta: dá para tratar a Vale e seus sócios, principalmente o governo, como a fabriqueta de pipas da esquina? Acredito que não. A Vale é um dos motores de popa da economia brasileira e o governo federal é o principal agente PÚBLICO da economia. Como agente público, de quem se cobra a conduta transparente, fico imaginando a manchete caso o assunto fosse tratado como sugere a Miriam Leitão: "A portas fechadas, governo articula mudanças na Vale e pressiona sócios em reunião do conselho admistativo." Ou seja, não tem muito para onde correr... Com relação à matéria original do FT, alguns elementos também se destacam. O jornal chama atenção para o eclipse neoliberal do Estado nos anos 1980 e 1990, que interrompeu o histórico de intervenção do Estado na industrialização nacional. Nos anos 2000, após a estabilização econômica, o governo retonou a política industrial. Segundo um investidor citado, esse retorno teria sido a maior mudança no Brasil nos últimos cinco anos. O jornal destaca o papel do BNDES nesse processo, participando como acionista das maiores empresas brasileiras. Porém, o ponto mais importante para mim é o final da matéria onde o FT aponta importante diferenças entre a condução chinesa e a condução brasileira da PI. Segundo o FT, o governo brasileiro é mais pragmático e tem uma abordagem da política industrial baseada em regras e não na discricionariedade do governante. Mostra disse é que, em relação à Vale, além do ponto positivo levantada pelas credenciais de Murilo Ferreira, nos termos colocados acima, o jornal destaca que a intenção do governo é elaborar uma nova política nacional de mineração para guiar os passos da Vale e não ter uma interferência no dia-a-dia da empresa, isso sim uma intrusão injustificada. O ponto final de reflexão é que conhecer e aprender com o modelo estatista chinês não é diferente de conhecer e aprender com o modelo coreano ou japonês, porém levanta muito menos poeira por parte dos críticos do governo. Ocorre que "conhecer e aprender" não é sinônimo de "replicar". Ou seja, a menos que se esteja alegando que o governo brasileiro, após "conhecer e aprender" com o modelo chinês de condução da PI vai implantar uma ditadura para replicar o governo chinês; anexar os países sulamericanos para replicar o território chinês; ou promover uma política de procriação em massa para replicar o mercado consumidor chinês, o que se está fazendo é o simples ato racional de não ignorar um país cuja economia cresce a 10% ao ano. Há dez anos!! Sei não, mas alguma coisa eles devem estar fazendo certo... Isso não implica em negar que o modelo de crescimento liderado pelo estado chinês não tenha gravíssimos problemas, envolvendo questões ambientais, violação de regras do comércio exterior, dumping cambial e qualquer sombra mínima de dignidade no trabalho (como se EUA, Alemanha, Inglaterra, Coréia e Japão também não tivessem produzido seus esqueletos e colocado-os no armário da sua PI). Implica sim, em aprender não só com os acertos, mas também com os erros dessa potência mundial. Se aprender com os acertos não implica em replicação, igualmente aprender com os erros não implica em demonização. A menos para quem queira fazer isso às expensas dos fatos.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Notícias de Março 09 - Capitalismo de Laços aplicado II - a missão.
O livro do professor Sérgio Lazzarini, Capitalismo de Laços, inicia-se com a controvérsia envolvendo conflitos entre a gestão da Vale, empresa brasileira e uma das maiores mineradoras do mundo, e o Governo brasileiro, representado no conselho administrativo da empresa pela participação do BNDESPAR (braço acionário do BNDES) e da PREVI (fundo de previdência dos funcionários do Banco do Brasil). Na ocasião, falava-se das pressões do governo para que a Vale excedesse o ramo da mineração e entrasse no ramo de produção, o que ampliaria o valor agregado das exportações brasileiras. A posição do então "chefão" da Vale, Roger Agnelli, era de que o nicho competitivo da Vale era no setor de mineração, onde ela estava muito bem, não fazendo sentido comercial entrar em um ramo onde existem competidores internacionais fortes e desvantagens que tornariam a Vale pouco competitiva, fazendo-a perder dinheiro. As movimentações em torno do nome de Sérgio Rosa, então presidente da PREVI, para substituição de Agnelli envolviam inclusive o homem mais rico do Brasil, Eike Batista. Ontem a revista Exame (27/03/2011) publicou matéria afirmando ser uma questão de tempo a saída de Agnelli, que já teria desistido da batalha hercúlea que vinha travando para permanecer à frente da Vale. Segue link: http://exame.abril.com.br/negocios/gestao/noticias/para-governo-saida-de-agnelli-ja-esta-definida O nome de Sérgio Rosa não aparece na corrida sucessória. Porém, a motivação da saída de Agnelli repousa efetivamente sobre a pressão para mudanças no rumo da Vale. Após afirmações do então presidente Lula sobre a necessidade da Vale trabalhar com produtos de maior valor agregado, foi a vez agora do governo Dilma reafirmar a sua divergência quanto ao foco exclusivo da gestão Agnelli na atividade de mineração. A questão principal aqui é o envolvimento direto do governo na definição da estratégia comercial de uma empresa privada. Por um lado, se era para continuar mandando, por que privatizou em primeiro lugar? Por outro lado, o governo não deixa de estar exercendo o seu papel de acionista, afinal ele detém posição acionária na empresa e assento em seu conselho administrativo, ou seja, qual deveria ser sua postura? Macaca de auditório, aplaudindo o Agnelli? Para além da conduta para lá de justa do governo enquanto acionista se posicionar quanto aos planos da empresa na qual detém posição acionária, uma outra questão (ou melhor, um outro nível da mesma questão) se coloca: Sendo acionista de uma empresa privada e, portanto, preocupada com lucro não com superávit da balança comercial, não teria o governo que se conduzir dentro da administração da empresa mais como empresário do que como governo? Para tornar ainda mais clara essa conta, vamos separar a atuação do BNDESPAR, uma instituição legitimamente pública, vinculada a uma instituição 100% pública (BNDES), da atuação da PREVI, uma instituição mista, envolvendo gestores públicos e privados, mas que deveria ter como objetivo principal gerar fundos para garantir a aposentadoria de seus membros e não ser ponta de lança da estratégia governamental de desenvolvimento, baseada na agregação de valor a nossa pauta de exportações. Será que diante da resistência de Agnelli em levar a Vale para o setor de siderurgia, com base em argumentos comerciais (alta competição internacional no setor), a PREVI coordenar um esforço para mudança de rumo, agindo como correia de transmissão do governo e, consequentemente, correndo sério risco de perder dinheiro e prejudicar seus membros, composta não pelo alto gabinete da Presidenta Dilma, mas pelos funcionários do BB, poderia ser uma conduta aceitável? Acreditamos que não. Na resenha em que discuto o livro "Capitalismo de Laços", já disponibilizada aqui no NBR, contraponho algumas observações à tese dos fundos de pensão como meras correias de transmissão do governo. Mostra disso é o afastamento dos diretores de fundos de pensão envolvidos nas negociações que levaram à saída da TIW no mercado de telecomunicações brasileiro. Por outro lado, a manutenção de posições acionárias relevantes em empresas estratégicas que foram privatizadas torna no minimo esperado o condicionamento da sua atuação a fatores outros que não a mera geração a curto prazo de lucro para os acionistas, da mesma forma como outros acionistas podem ter como motivação exclusiva o lucro. A atuação da empresa será fruto dessa interação entre os interesses de seus acionistas. Porém, para o governo deter, mediante BNDESPAR e, indiretamente, PREVI, uma posição acionária significativa numa empresa do porte da Vale, deve ter havido um investimento significativo de recursos públicos para aquisição dessa posição. Sendo assim, conduzir (ou pelo menos tentar conduzir) a estratégia da empresa de acordo com os interesses do governo (assim como qualquer outro acionista faria em relação aos seus próprios interesses) parece o único comportamento capaz de justificar o investimento feito. Para os que se opõem a esta interferência, resta estabelecer como critério de privatização a exclusão completa de qualquer comprador que tenha a mínimo vinculação de propriedade com o governo. Fora isso, o que se tem é o comum em qualquer conselho administrativo de uma grande empresa: uma briga entre os acionistas para ver quem tem a unha maior e garante os seus interesses (sejam eles públicos ou privados).
domingo, 27 de março de 2011
Notícias de Março 08 - Educação - Negócio da China
Infelizmente não pude colocar o link aqui por problemas no site do Jornal A Tarde (Salvador), mas me chamou atenção o artigo do Fábio Colleti Barbosa (presidente do Grupo Santander Brasil e da FEBRABAN) publicado na edição desse domingo (Jornal A Tarde, 27/03/2011). Segue o link de outro blog que publicou o texto, extraído, desta vez, da edição de domingo da Folha de São Paulo: http://carcara-ivab.blogspot.com/2011/03/educacao-o-negocio-da-china.html A discussão levantada por Colleti é bastante significativa no atual debate em torno da Política Industrial. Ele levanta a questão da contraposição Políticas Horizontais X Políticas Verticais, ao afirmar que "(...) o que acontece na China não me parece algo passageiro ou fruto de uma estratégia apenas focada em subsídio ou distorção cambial. A crescente eficiência da China está sendo alicerçada com vultosos investimentos na qualidade da educação em todos os níveis." A questão aqui é: vale mais a pena investir em políticas verticais, que favorecem algumas indústrias especificamente (na linha do que discuto acerca da estratégia de formação de multinacionais brasileiras) ou investir em políticas horizontais que favorecem todos os setores econômicos, como educação, infra-estrutura logística, etc? Quem aposta na necessidade de uma atuação ativa dos Estados na condução de uma Política industrial (Chang, Rodrik, Fleury & Fleury), apesar de não desconhecer os frutos a longo prazo do investimento no capital humano (se não por razões "humanitárias", pelo simples fato de que o futuro da economia está na economia do conhecimento, nos produtos com alto valor agregado, ou seja, precisaremos cada vez mais produzir cérebros, em substituição - ou complementação - ao petróleo, soja, carnes, etc. Porém, produzir cérebros demora e não dá para congelar a economia - e as oportunidades que surgem AGORA - por 30 anos), reconhece igualmente a necessidade de investir agora, seja para surfar na onda da economia aquecida, seja para vencer a corrente contrária da economia em crise. O fato é que essas duas posições não são excludente (ninguém defende investimento totais apenas em um dos lados da equação - seja para não parecer ingênuo, seja para não parecer desumano). Porém, em seu tratando de especialistas em uma "ciência da escassez", os economistas tendem a se posicionar quanto à preponderância de uma sobre a outra. Há os que vêem a política comercial agressiva da China (que incluem a "distorção cambial" citada por Colleti) como uma "bolha estratégica", ou seja, uma estratégia de efeito rápido, mas insustentável no futuro; e há os que vêem a Política Industrial como um reconhecimento do óbvio - o mercado não funciona sozinho, principalmente a favor dos que estão do lado errado da banca de negociação. Essa discussão foi levantada também por Sérgio Lazzarini, em uma das nossas conversas por e-mail. Ele mostrou a importância de olhar o outro lado da cerca (uma vez que eu estava - e, por enquanto, ainda estou - inclinado a defender a necessidade de uma Política Industrial) e ver a importância das políticas horizontais. Segue o link do artigo que ele me indicou para ler (detalhe para o título, nada sutil: "Por que o Brasil não precisa de política industrial.") http://virtualbib.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/706/2191.pdf?sequence=1 Fiz uma leitura inicial desse artigo e - é claro - tenho algumas divergências, como a alegada negatividade absoluta da inflação - acredito que a mesma inflação alta que pode mostrar uma febre fatal da economia, pode, em sendo muito baixa, mostrar a falência de uma economia morta - e a relação direta entre um alto Gasto Público X PIB e ineficiência - que não poderia ser aplicada a países como EUA e Alemanha, cuja relação Gasto Público X PIB é alta, sem que estes países sejam apontados como ineficientes. Porém, o artigo levanta questões importantes, assim como o artigo de Colleti, que mostra, no mínimo, a necessidade de justificar claramente o porquê inclinar a balança do investimento público para as políticas verticais e, no máximo, o acerto em investir no ganho certo da educação e não na aposta incerta - e discutível - de favorecer algumas indústrias - e dentro, delas, algumas empresas - e não outras. Fazendo um reducionismo grosseiro - mas nem por isso menos preciso - seria como optar entre a segurança da caderneta de poupança ou o lucro alto do mercado de capitais. Nos anos 1980, a escolha era fácil: não tínhamos cacife para girar a roleta. Hoje, integrando o G7 da economia mundial, na minha opinião, podemos cobrir apostas e ganhar rodadas (como na OMC, como já comentei aqui). Hoje, ser um poupador ou um jogador? Para o Brasil, os dados estão rolando...
segunda-feira, 21 de março de 2011
Notícias de Março 07 - BNDES com lucro recorde - R$ 9,9 bilhões em 2010.
A atuação do BNDES é um dos assuntos que mais interessam a esta pesquisa. Além da constante menção à atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (criado em em 1952, como BNDE, só recebendo o "S" trinta anos depois, em 1982) na discussão em torno do livro "Capitalismo de Laços", referência obrigatória nessa pesquisa, o BNDES também é crucial por capitanear, sob o comando de Luciano Coutinho, o processo de formação de líderes nacionais com vistas à inserção internacional.
Os últimos dados indicam que a atuação do BNDES, seja no fortalecimento do capitalismo de laços, seja na implementação da estratégia de formação de global players, estará mais forte que nunca. O site oficial do banco anunciou hoje (21/03/2011) um lucro líquido de R$ 9,9 bilhões, um aumento de 47,2% em relação ao ano de 2009. Veja o texto completo no link abaixo:
http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Sala_de_Imprensa/Noticias/2011/financas/20110321_Lucro2010.html
Duas partes dessa notícia me chamaram mais atenção. Primeiro, diversamente do que alguns autores cogitam acerca do uso político dos investimento do BNDES, através do seu braço de participações acionárias, o BNDESPAR, essas participações se mostraram extremamente rentáveis em termos econômicos, conforme afirma o texto:
"O crescimento do Resultado com Participações Societárias, no ano passado, decorreu, principalmente, do acréscimo de 179,5% do resultado com alienações, que passou de R$ 1,2 bilhão em 2009 para R$ 3,2 bilhões em 2010. Este aumento foi possível em função de melhora nas condições de mercado no ano passado, quando comparado a 2009, o que possibilitou a realização de operações de giro da carteira de participações societárias. O bom desempenho reflete, também, a qualidade da carteira da BNDESPAR, braço de participações do BNDES."
Além disso, outro alvo preferencial das críticas à politização da atuação do BNDES é o seu sistema de monitoramento em seus contratos de investimento. Para tais críticos, esse monitoramento seria frágil, implicando na injeção de recursos públicos em empresas que não cumprem devidamente as metas de desempenho acertadas. O comunicado do BNDES, certamente em causa própria, mas nem por isso menos válido do que as denúcias feitas contra ele, afirma justamente o contrário, enaltecendo seu sistema de monitoramento nos seguintes termos:
"A qualidade de crédito é resultado da consistência de suas políticas. Os financiamentos concedidos pelo BNDES são objeto de contínuo acompanhamento e demandam garantias que cubram a posição devedora ao longo da vida dos contratos."
Assim, às críticas quanto aos seus critérios políticos de financiamento e ao seu monitoramento "camarada", o BNDES responde alegando a alta lucratividade dos seus investimentos, lastreados em rígido monitoramento quanto às metas de desempenho acordadas.
Apenas à título comparativo, o estudo do VEB, o similar russo do BNDES, considerando os dados de 2008 e 2009, apontou o BNDES como o quarto maior banco de desenvolvimento do mundo em valor de ativos, atrás apenas dos bancos de desenvolvimento da China, da Alemanha e da Coréia do Sul. Veja o texto acerca do estudo conduzido pelo banco russo:
http://www.amanha.com.br/component/content/article/482-bndes-brilha-em-relatorio-de-banco-russo
Considerando o grupo dos 10 maiores bancos de desenvolvimento do mundo, o estudo russo aponta as áreas em que o BNDES é imbatível e aquelas onde ele fica longe da medalha de bronze (ainda que muito melhor colocado que as cerca de 750 instituições semelhantes no mundo):
"Em rentabilidade dos ativos, em 2008, o BNDES ocupou o primeiro lugar, o chinês ficou em segundo e o VEB em sétimo. Em rentabilidade do capital, o primeiro lugar também foi do BNDES, o segundo do Banco Indiano de Desenvolvimento Industrial, enquanto o VEB ficou em sétimo. Em grau de liquidez dos ativos, também o BNDES ficou em primeiro, o chinês em segundo e o russo em sétimo.
O BNDES não aparece entre os três primeiros em valor total de ativos (chinês em primeiro), capital próprio (chinês em primeiro), valor do portfólio de créditos (alemão em primeiro; isto em 2008, talvez agora em 2010, com a recente superexpansão de crédito do BNDE,S o ranking mude) e ativos totais como percentual do PIB (coreano em primeiro)."
Se o BNDES já se destacava com os valores registrados em 2008 e 2009, ainda sob o impacto da Crise de 2008, certamente sua posição no ranking melhorou após o resultado expressivo de 2010.
Os últimos dados indicam que a atuação do BNDES, seja no fortalecimento do capitalismo de laços, seja na implementação da estratégia de formação de global players, estará mais forte que nunca. O site oficial do banco anunciou hoje (21/03/2011) um lucro líquido de R$ 9,9 bilhões, um aumento de 47,2% em relação ao ano de 2009. Veja o texto completo no link abaixo:
http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Sala_de_Imprensa/Noticias/2011/financas/20110321_Lucro2010.html
Duas partes dessa notícia me chamaram mais atenção. Primeiro, diversamente do que alguns autores cogitam acerca do uso político dos investimento do BNDES, através do seu braço de participações acionárias, o BNDESPAR, essas participações se mostraram extremamente rentáveis em termos econômicos, conforme afirma o texto:
"O crescimento do Resultado com Participações Societárias, no ano passado, decorreu, principalmente, do acréscimo de 179,5% do resultado com alienações, que passou de R$ 1,2 bilhão em 2009 para R$ 3,2 bilhões em 2010. Este aumento foi possível em função de melhora nas condições de mercado no ano passado, quando comparado a 2009, o que possibilitou a realização de operações de giro da carteira de participações societárias. O bom desempenho reflete, também, a qualidade da carteira da BNDESPAR, braço de participações do BNDES."
Além disso, outro alvo preferencial das críticas à politização da atuação do BNDES é o seu sistema de monitoramento em seus contratos de investimento. Para tais críticos, esse monitoramento seria frágil, implicando na injeção de recursos públicos em empresas que não cumprem devidamente as metas de desempenho acertadas. O comunicado do BNDES, certamente em causa própria, mas nem por isso menos válido do que as denúcias feitas contra ele, afirma justamente o contrário, enaltecendo seu sistema de monitoramento nos seguintes termos:
"A qualidade de crédito é resultado da consistência de suas políticas. Os financiamentos concedidos pelo BNDES são objeto de contínuo acompanhamento e demandam garantias que cubram a posição devedora ao longo da vida dos contratos."
Assim, às críticas quanto aos seus critérios políticos de financiamento e ao seu monitoramento "camarada", o BNDES responde alegando a alta lucratividade dos seus investimentos, lastreados em rígido monitoramento quanto às metas de desempenho acordadas.
Apenas à título comparativo, o estudo do VEB, o similar russo do BNDES, considerando os dados de 2008 e 2009, apontou o BNDES como o quarto maior banco de desenvolvimento do mundo em valor de ativos, atrás apenas dos bancos de desenvolvimento da China, da Alemanha e da Coréia do Sul. Veja o texto acerca do estudo conduzido pelo banco russo:
http://www.amanha.com.br/component/content/article/482-bndes-brilha-em-relatorio-de-banco-russo
Considerando o grupo dos 10 maiores bancos de desenvolvimento do mundo, o estudo russo aponta as áreas em que o BNDES é imbatível e aquelas onde ele fica longe da medalha de bronze (ainda que muito melhor colocado que as cerca de 750 instituições semelhantes no mundo):
"Em rentabilidade dos ativos, em 2008, o BNDES ocupou o primeiro lugar, o chinês ficou em segundo e o VEB em sétimo. Em rentabilidade do capital, o primeiro lugar também foi do BNDES, o segundo do Banco Indiano de Desenvolvimento Industrial, enquanto o VEB ficou em sétimo. Em grau de liquidez dos ativos, também o BNDES ficou em primeiro, o chinês em segundo e o russo em sétimo.
O BNDES não aparece entre os três primeiros em valor total de ativos (chinês em primeiro), capital próprio (chinês em primeiro), valor do portfólio de créditos (alemão em primeiro; isto em 2008, talvez agora em 2010, com a recente superexpansão de crédito do BNDE,S o ranking mude) e ativos totais como percentual do PIB (coreano em primeiro)."
Se o BNDES já se destacava com os valores registrados em 2008 e 2009, ainda sob o impacto da Crise de 2008, certamente sua posição no ranking melhorou após o resultado expressivo de 2010.
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