terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Artigos 2013. O Desempenho das Exportações Brasileiras sob o Ponto de Vista da Intensidade Tecnológica (2000-2010)

RESUMO
 
O presente artigo analisa o desempenho das exportações brasileiras nos anos 2000, enfatizando sua intensidade tecnológica. O interesse pelo tema surge no bojo do lançamento, em 2004, da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE). Sua intenção é tentar identificar, por um lado, evidências empíricas de um melhor desempenho em termos de intensificação tecnológica da nossa pauta de exportações ao longo do período de vigência da PITCE (2004-2008), e, de outro, evidências heurísticas que permitam correlacionar os resultados e as medidas vinculadas à PITCE.
 
Palavras-chaves: Política Industrial; Pauta de Exportações, Intensidade Tecnológica; Governo Lula.
 
ABSTRACT
 
This paper analyses the performance of Brazilian Exports in the 2000’s, with special attention on technological intensity. The interest on this theme arises from the release, in 2004, of the Industrial, Technological and Foreign Trade Policy (PITCE). The paper tries to identify, on one hand, empirical evidence of improved performance in terms of technological intensification of our export throughout the duration of PITCE (2004-2008), and, on the other hand, heuristics evidences that allow us to correlate the results and the measures linked to PITCE.
 
Keywords: Industrial Policy; Brazilian’s Exports; Technological Intensity; Lula’s Government.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Artigos 2013 - Economia Política Institucionalista: a contribuição de Ha-Joon Chang para a Administração Política

Resumo
 
O presente artigo busca explicitar as vinculações entre a Administração Política, novo campo de conhecimento criado nos anos 1990 pelo professor Reginaldo Souza Santos, e a Economia Política Institucionalista, criada nos anos 2000 pelo economista Ha-Joon Chang. Essas vinculações estão demonstradas pela base comum no Institucionalismo e na tentativa de superação do reducionismo positivista. Porém, busca ainda contribuir com a consolidação da Administração Política através da contribuição oferecida pela Economia Política Institucionalista, principalmente sua perspectiva diferenciada quanto ao Estado, ao Mercado e à Política.
 
Palavras-Chave: Administração Política, Economia Política Institucionalista; Estado, Mercado; Política.
 
Abstract
 
The article intends to show the links between the Political Administration, a new knowledge field created in the 1990’s by professor Reginaldo Souza Santos, and the Institucionalist Political Economy, created in the 2000’s by economist Ha-Joon Chang. These links are demonstrated by a common base on Institutionalism and in a search to substitute the positivist reductionism and its analytical weakness. Beyond that, the article also aims to help on the consolidation of Political Administration showing the contributions offered by Institucionalist Politics Economy, especially its perspective on State, Market and Politics.
 
Keywords: Political Administration; Institucionalist Political Economy; State, Market; Politics.
 
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Artigos 2013 - Repensando o Patrimonialismo: ainda uma chave explicativa do Estado brasileiro?

RESUMO:
 
O presente trabalho busca aprofundar o conhecimento acerca do patrimonialismo, com o objetivo de responder a seguinte questão: será que o patrimonialismo ainda é uma chave explicativa relevante para se entender a atuação do Estado brasileiro? Esse questionamento decorre de um fator diacrónico e outro sincrônico. O primeiro refere-se à permanência do patrimonialismo nas análises políticas feitas sobre o Brasil, estejam elas avaliando a República Velha ou o governo Lula. Já no aspecto sincrónico, alguns pensadores vêm levantando a hipótese de um retorno renovado ao desenvolvimentismo, ou seja, à presença mais atuante do Estado sobre a economia. Nestes termos, esse crescimento da atuação estatal abriria novos espaços para práticas patrimonialistas? Até que ponto esse assertiva é irrefutável? Essas são algumas das questões que este artigo busca debater.
 
Palavras-Chaves: Patrimonialismo; Estado; História Política do Brasil.
 
ABSTRACT:
 
This study aims to deepen the knowledge of patronage, in order to answer the following question: does the patronage still an important explanatory key to understanding the action of the Brazilian State? This question arises from a diachronic factor and a synchronic factor. The first refers to the permanence of patronage in policy analysis made on Brazil, no matter if the period analyzed is the Old Republic or the Lula government. The synchronic factor is an actual tendency by some political scientists to show a revival of developmentism, that means State interventionism in Brazil. Would the growth of State actions open new spaces for the old patrimonialistic practices? How undeniable is this statement? These are some questions that this article intends to respond.
 
Keywords: Patronage; State; Political History of Brazil.
 
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Artigos 2012 - A Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior - Conteúdo, Resultado e Reflexões

Resumo
 
Este trabalho analisa a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), tanto em seu conteúdo (objetivos, ações horizontais e verticais e estrutura de governança) quanto nos resultados durante sua vigência, entre 2004 e 2008. Neste artigo pretende-se usar a contraposição entre o conteúdo da PITCE e seus resultados para discutir uma nova configuração do Estado brasileiro, no âmbito do que tem sido chamado de uma revisita ao seu legado desenvolvimentista, e a resistência das práticas patrimonialistas que geram privilégios para os grupos tradicionais da economia. Este texto busca se inserir nessa discussão mais ampla via análise da PITCE.
 
Palavras-chave: Política industrial. Política pública. PITCE. Desenvolvimentismo
 
Abstract
 
This paper analyzes the Industrial, Technological and Foreign Trade Policy (PITCE), both in its content (objectives, actions, horizontal and vertical actions and governance structure) and the results during its term, between 2004 and 2008. In this article we intend to use the contrast between the content and results of PITCE to discuss a new configuration of the Brazilian State, within what has been called a “developmental legacy revisiting” and the patrimonial practices resistance that creates privileges for traditional groups of the economy. This paper seeks to be insert into this broader discussion through analysis of PITCE.
 
Keywords: Industrial policy. Public policy. PITCE. Developmentism.

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Revista Bahia Análise & Dados Indústria

Artigos 2012 - Releituras Desenvolvimentistas e os Dilemas da Reconstrução do Estado no Século XXI

Resumo
 
Após a Crise de 2008, o mundo discute alternativas pós-neoliberais. A releitura desenvolvimentista é uma delas. Vários autores defendem essas releituras: Bresser-Pereira (Novo-Desenvolvimentismo); Pochman (Social-Desenvolvimentismo); Magalhães (Desenvolvimentismo Keynesiano), Veiga (neo-desenvolvimentismo). A nova Política Industrial (2004), é uma evidência dessa retomada. Mas alguns dilemas se apresentam: 1) Como deve ser exercido o controle democrático na releitura desenvolvimentista, já que este era nulo antes? 2) Como a variável ambiental, inexpressiva antes e crucial hoje, altera a equação desenvolvimentista atual? 3) Como o patrimonialismo e o neo-republicanismo podem representar velhos limites e novas condições para a releitura desenvolvimentista? Esse artigo, fruto de uma dissertação de mestrado defendida em 2012, analisa possíveis respostas para estes dilemas.
 
Palavras- Chaves: Desenvolvimentismo; Política Industrial; Participação; Meio Ambiente; Neo-republicanismo.
 
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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Retorno - Material da Entrevista com o Professor João Furtado, da UNICAMP

Novamente retornando ao NBR depois de longa ausência. Esse retorno ocorre após alguns imprevistos. O principal deles, o fato da dissertação não ter sido aprovada a contento, tendo sido necessário fazer uma segunda versão da dissertação, que precisou abordar o tema da política industrial de forma mais direta. O consenso da minha banca (Professor-Orientador José Antônio Gomes Pinho; o Professor Sandro Cabral; e o Professor Carlos Melo) foi que o texto que eu apresentei era muito "pretensioso" em suas ambições, mas extremamente imperfeito em sua execução. Ou seja, eu falei, falei, falei e, no final, não disse nada! Esse é o tipo de crítica que ouço desde a minha monografia de Urbanismo e em vários trabalhos feitos ao longo dos meus anos de vida acadêmica. Porém, ninguém nunca tinha efetivamente me "parado" e dito: "Olha, ou você para de escrever desse jeito ou você nunca será um acadêmico de verdade." Acho que o grande ganho dessa "não-aprovação" ou "aprovação com ressalvas" foi ter colocado um limite claro de até onde a minha retórica era capaz de me levar sozinha. Daqui para frente, tenho que acrescentar algum rigor científico e alguma fundamentação mais consistente para ir adiante. Nesse momento, estou em "stand-by", pois entreguei um outro texto bem mais enxuto do ponto de vista teórico e com um viés essencialmente prático, observando, através de dados reais e quantitativos, os efeitos da PITCE sobre a intensidade tecnológica das nossas exportações. Bom, na pior das hipóteses (a dissertação não ser aprovada), a nova pesquisa sobre exportações gerou mais material para outros artigos. Na verdade, a pesquisa foi bem interessante e devo, em breve, disponibilizar aqui os dois textos (o megalomaníaco e esse segundo, mais específico). 

Porém, esse post é principalmente para divulgar o novo video que editei com alguns momentos da minha entrevista com o professor João Furtado, da UNICAMP. O professor Furtado foi extremamente simpático e atencioso comigo, me dando uma longa entrevista em seu escritório, no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Abaixo seguem o resumo de alguns pontos da entrevista, bem como links para a transcrição completa da entrevista, o audio completo e o video com alguns dos destaques da entrevista. Em breve, estarei editando e disponibilizando aqui o video com o professor Wilson Suzigan, da UNICAMP, assim como já disponibillizei aqui o video do professor Salerno. 

O Entrevistado: O professor João Furtado tem graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas (1981), mestrado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas (1984) e doutorado em Sciences Économiques - Universite de Paris XIII (Paris-Nord) (1997), com especialização sobre "Estratégias e Políticas Industriais e Tecnológicas" na CEPAL/ONU (Santiago do Chile, 1991). É professor assistente-doutor da UNESP (licenciado), credenciado como professor-orientador do programa de pós-graduação em Política Científica e Tecnológica da UNICAMP, professor assistente-doutor da Escola Politécnica da USP. Produziu e publicou uma centena de artigos, capítulos de livros e relatórios técnicos. Exerce, na FAPESP, a função de coordenador-adjunto para as áreas de inovação e para os programas PIPE e PITE. Conselheiro da FIESP (Conselho Superior de Tecnologia) e conselheiro (Conselho Superior) da Fundação Escola de Sociologia e Política.
A política industrial brasileira pós-2003. O professor Furtado inicia afirmando que a PITCE, em 2004, é um momento de despertar. E esse despertar revela um antigo compromisso dos novos governantes com a ideia de política industrial. Não se sabe muito bem qual é esse compromisso, mas o fato é que ele existe e existia antes deles assumirem o governo. Assim, em um governo que se inicia marcado por uma política econômica que é extremamente conservadora e aprisionada pelo medo, a política industrial surge como uma ponta de esperança. De fato, para o professor, são duas as grandes concessões com as quais essa política econômica conservadora teve que conviver: a política industrial e as políticas sociais. Essas últimas, de tão importantes, são tocadas pelo próprio presidente Lula. Já a política industrial é uma concessão menor feita em relação à política macroeconômica conservadora. Segundo o professor Furtado, a PITCE seria essencialmente um “tempero de ideias diferentes” em meio a uma política econômica que se mantém a mesma do governo anterior. Mas mesmo sendo só um tempero, sem recursos, sem investimentos significativos, ele cria um ambiente. Exemplo disso é a reação que tiveram os técnicos das principais instituições envolvidas com esse tipo de política, que são o BNDES e a FINEP, diante do anúncio de uma nova política industrial. Eles enxergaram ali uma possibilidade de alinhamento até então inexistente. Exemplo claro são os técnicos envolvidos com o setor de fármacos, que sempre tiveram planos ambiciosos, mas que não encontravam ambiente para que esses planos frutificassem. Eles veem nessa política tímida, sem muitos recursos, um novo horizonte para novas propostas de ação governamental. E a ascensão que esses técnicos posteriormente tiveram dentro dessas instituições mostra a nova importância dada à ideia de política industrial e àqueles envolvidos com ela. Nas palavras do professor Furtado, a PITCE foi um “bem sucedido fracasso”, pois não tinha as condições materiais de provocar grandes rupturas, porém ao criar um novo ambiente, possibilitou mudanças até então tidas como fora de pauta.
A Política de Desenvolvimento Produtivo. Não se usa o nome “política industrial” de forma tão explícita quanto na PITCE porque a legitimação não estava ainda consolidada. Por outro lado, ela não é de fato uma política industrial clássica porque não visa novas configurações industriais. Porém, ela facilita o investimento por parte do setor industrial, que era o necessário na época. Outra crítica feita a ela era de que a PDP não tinha prioridades, pois atirava para todos os lados. No entanto, a sua prioridade clara era a volta do investimento e isso tinha que ser fomentado em todos os setores. As críticas quanto aos fluxos de recursos do BNDES para alguns setores e não outros reforça esse desconhecimento de que a meta era ampliar o investimento. Assim, qualquer setor que se apresentasse como um possível grande investidor receberia apoio, não importa qual. Assim, não havia, como havia na PITCE, uma visão de futuro que apontasse quais os setores prioritários para receber investimentos. Porém, essa visão de futuro da PITCE estava desconectada com os interesses e movimentos concretos da economia brasileira e do cenário internacional. Assim, quem seriam os atores que transporiam essa visão de futuro da PITCE para a realidade? Não haviam. Em um texto de 2010, o próprio professor Furtado (tendo como co-autor o professor Suzigan) afirma que a política deve estabelecer metas adequadas ao que se tem disponível. No caso da PDP, a tentativa de minimizar essa distância entre metas ambiciosas e instrumentos limitados foi dizer: “Existe dinheiro. Venham.” E ai, se aparece usina de cana, fábrica de automóveis ou frigoríficos, o importante é viabilizar os investimentos econômicos. 

O Plano Brasil Maior. Na tentativa de reduzir a distância entre as grandes diretrizes da política industrial e as decisões operacionais para a sua execução, o Plano Brasil Maior, na opinião do professor Furtado, comete um grande equívoco ao incorporar ao sistema gestor da política a presença de donos de empresas. Aqueles que deveriam ter sido incluídos seriam os representantes do setor industrial como um todo e não donos de empresas individuais. Assim, os conflitos interempresariais vão paralisar a execução da política industrial. Além da preferência pela representação da categoria e não de membros individuais dessa, o professor Furtado também ressalta a preferência por representantes técnicos, que conheçam a dinâmica e o funcionamento do setor como um todo e não somente a partir desta ou daquela empresa. Em resumo, o problema de legitimação hoje da política industrial é muito menos em relação à sociedade, e muito mais em termos de articulação intra-Estado, tanto no diálogo com os seus órgãos quanto na forma escolhida de relação com a sociedade. Nesse sentido, o modelo que está se formando, com o protagonismo do BNDES de um lado, e a pouca articulação setorial de outro pode fazer com que dois tipos de agentes sejam beneficiados: aqueles agentes que tem grande dependência do BNDES e pouca dependência da articulação com os outros agentes do setor e aqueles agentes que tem pouca dependência do BNDES e muita dependência de articulação com os demais agentes do setor. Para aqueles que dependem muito do BNDES e muito da articulação com os outros agentes do setor, o modelo é prejudicial porque o BNDES não teria essa capacidade de articulação intrasetorial.
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segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Naufrágio da Europa: novo Titanic ou botes à vista?

Lendo o artigo de João Pereira Coutinho sobre o resultado das últimas eleições européias (http://rodrigoconstantino.blogspot.com.br/2012/05/o-naufragio-da-europa.html), enviado pelo parceiro de reflexões Ruy Leal, visualizo como meu tema de pesquisa (neodesenvolvimentismo) é atual. O que é a eleição de Hollande senão: 1) o diagnóstico de que a crise de 2008 ainda continua forte na França; 2) o remédio de austeridade francesa, receitado pela Alemanha, foi de um amargor insuportável para os franceses; 3) a promessa de Hollande é um novo tipo de remédio que, ao invés de matar a doença de fome, busca fortalecer as defesas do corpo. Esse novo tipo de remédio se materializa numa negação do discurso (e práticas) neoliberais de remeter as construções coletivas da sociedade (e formativas do próprio processo produtivo) apenas à livre movimentação das forças de mercado. Em oposição a isso, receita-se um reposicionamento do Estado diante da economia. Afinal, se é para injetar um bilhão de dólares na GM para salvá-la da incompetência dos seus diretores nababescamente remunerados, porque não usar da autoridade legitimada democraticamente (em substituição a autoridade imposta pelo grande capital, tão autoritária quanto, mas sem nenhuma legitimidade) para fazer mais do que apenas tapar o poço sem fundo das sandices especulativas criadas pela inesgotável criatividade dos financistas (Derivativos, NINJA Loans, Subprime Mortgagees)? A discussão em torno da possibilidade de elaboração de um projeto de desenvolvimento nacional está menos nas dificuldades de, uma vez elaborado, levá-lo adiante pelas mãos das precárias lideranças políticas existentes, do que na aceitação da própria ideia da possibilidade da elaboração consciente e intencional de algo tão amplo quanto tal projeto e que precisa, contraditoriamente à sua unidade interna, refletir a diversidade do seu ambiente social. Para pensadores da linha do representante maior da Escola Austríaca, Friedrich von Hayek, é justamente essa barreira cognitiva que torna qualquer proposta de projeto coletivo um passo para governos totalitários (seu famoso “Caminho para Servidão”). Já pensadores contemporâneos como K. Sabeel Rahman, da Universidade de Harvard, entendem que a democracia pode muito bem superar esse obstáculo, uma vez que essa diversidade não pode ser igualmente totalitária, pois a vida em sociedade não comporta os extremos da liberdade negativa ou dos modernos (na clássica distinção de Benjamin Constant, notabilizada por Isaiah Berlin, com a liberdade positiva ou dos antigos). Quem vive em sociedade e tem sua vida garantida por uma série de construções coletivas como segurança, serviços públicos, urbanidade, valores compartilhados não pode se fechar em um hedonismo autista, considerando que os impostos que paga ao governo são o suficiente para comprar seu ticket de isolamento em seu universo particular (algo como “pago impostos para os políticos me governarem”, a lá Schumpeter). Obviamente defendo a tese de Rahman e a liberdade dos antigos, mais que a dos modernos, pois a liberdade como um fazer proativo e socialmente legitimado é o que está na base do neodesenvolvimentismo. Quando Hollande recusa a austeridade pela austeridade de Ângela Merkel em nome de uma ação responsável mas proativa, ele se junta a outros líderes mundiais que defendem o que o The Economist chamou este ano de “Capitalismo de Estado” (China, Brasil, Índia, Coréia do Sul, Japão e até, a partir da leitura de Rahman sobre o governo de Obama, com sua nova política de saúde e sua política industrial, os Estados Unidos). Para a extrema-direita, conservadora e porta-voz do grande capital, o “Capitalismo de Estado” é o totalitarismo previsto por Hayek Não é a toa que os republicanos adoram chamar Obama de socialista. Para a extrema-esquerda, revolucionária e porta-voz do proletariado, o “Capitalismo de Estado” é só mais um disfarce para o eterno “Comitê da Burguesia”. Sem me sentir a vontade em nenhum dos segmentos acima, “Capitalismo de Estado” para mim é a recusa do discurso neoliberal de que “o mercado resolve” e a aceitação do papel de autoridade democraticamente legitimada na condução (termo amplo que admite tanto a ação direta via empresas públicas quanto a ação indireta via mediação de pactos entre trabalhadores e empresários) de um projeto de desenvolvimento nacional. Negar tal papel ao Estado não é garantir que todos sejam tratados igualmente, sem os privilégios concedidos pelo Estado, mas sim fazer com que a competitividade intrínseca ao capitalismo selvagem vá atrás da concessão desses privilégios e desse tratamento diferenciado por todos os meios possíveis, da corrupção direta no Brasil até o lobby legalizado nos EUA. Lendo Joseph Schumpeter é possível afirmar, como faz Ha-Joon Chang, que a suposta assimetria de informações, vista pelos economistas neoclássicos como uma típica falha de mercado a ser corrigida, é, na verdade, o motor de propulsão dos ganhos diferenciados da empresas, que investem em pesquisa justamente para terem informações que seus concorrentes não têm. A competição entre as forças de mercado e a competição entre as forças políticas sempre existirá, assim como a imposição da vontade dos vencedores momentâneos dessas disputas sempre existirá. Como eu disse, a diferença entre a imposição da vontade do mercado ou do grande capital, individualizado nas empresas globais, e a vontade geral (para usar o termo de Rousseau), individualizada nos governos democraticamente eleitos, é apenas a legitimidade da segunda em relação à primeira. A vinculação direta entre capitalismo e democracia que pretende, por exemplo, Denis Rosenfeld, com base nos pensadores liberais e neoliberais, é uma peça de retórica sem maior substância. O capitalismo pode ser tão opressivo e totalitário quanto qualquer outro modo de produção (Rússia e China, que aderiram, total e parcialmente, ao capitalismo provam isso). Até porque, diversamente do que dizia Marx, o modo de produção não determina a superestrutura normativo-cognitiva, ainda que a influencie bastante. Porém, esta decorre de uma série de outras condicionantes que não estão inclusas na sacrossanta econometria dos neoclássicos como John Bates Clark e Vilfredo Pareto (a idealizada “Economia Pura”, a qual o economista português José Reis opõe a “Economia Impura”, de cunho institucionalista e muito mais realista). A depender desse conjunto de circunstâncias (e não apenas das econômicas), um arranjo sócio-político que congregue forças econômicas, políticas e sociais será, de forma mais ou menos duradoura, formatado. É a interação dessas forças e, principalmente, da força da sociedade civil, que determinará o grau de opressão que as outras duas forças poderão imprimir ao conjunto da população, sempre maioria numérica, mas ordinariamente também minoria decisória. Voltando à França, Hollande quer um governo focado em crescimento e não em austeridade. Em tempos de retranca na seleção brasileira de Mano Menezes, Hollande prefere jogar no ataque, a lá Barcelona, de Pepe Gardiola. Isso me lembra minha entrevista em São Paulo com o economista da UNICAMP, João Furtado. Nesta conversa, ele me dizia, entre uma xícara de café e outra, que a grande diferença entre o governo Lula e um eventual governo Serra foi a forma de tratar a crise de 2008. Segundo Furtado, um governo do PSDB teria seguido a cartilha-padrão de enfrentamento de crises financeiras, como a que ocorreu em 1999, ou seja, fechar a torneira, se apoiar nas reservas cambiais (infladas ocasionalmente pelo FMI) e esperar, encolhido, a tormenta passar. Em um contexto de crise financeira, como o de 2008, Lula, talvez até numa “sacada” pessoal, de sensibilidade à sua própria sobrevivência política e à manutenção dos louros conseguidos ao longo de 5 anos de lua de mel com a economia, pensou o imponderável e nadou contra a corrente, indo para o ataque com tudo que tinha em termos de sopa de letrinhas: PAC (investimentos públicos), PDP (Política Industrial), BNDES (financiamento). Com essa receita fora da cartilha da austeridade a todo custo, depois de anos colocando a estabilidade financeira como prioridade zero do governo (prioridade mantida no governo FHC e aprofundada, para desespero dos militantes de esquerda, no governo Lula), o Brasil conseguiu uma reação a crise que foi enaltecida nos quatro cantos do mundo (e claro que com o mesmo número de críticas que acusavam essa reação de ser apenas midiática, uma vez que o Brasil estaria sofrendo tanto quanto os EUA, dos homeless corporativos, ou qualquer um dos PIIGS, o que é, no mínimo, questionável). De qualquer modo, essa nova cartilha (ou devamos dizer “requentada”, pois redita coisas como o New Deal americano ou o Desenvolvimentismo asiático e latino-americano que vigorou entre os anos 1930-1970) vem encontrando novos adeptos do “defender atacando”. Hollande, pelo menos no discurso, é um deles. Se assim for, não parece ser possível reeditar a dobradinha Merkel-Sarkozi (ou “Merkozi”, como chamou a imprensa). Por outro lado, se as duas lideranças máximas da zona do Euro não perceberem o tiro no pé que é uma virar as costas para a outra, os esforços hercúleos de Konrad Adenauer e Charles De Gaulle para criar a União Européia, conforme me foram relembrados em ótimas conversas com o mestre Wolfgang Reiber no último final de semana, irão por água abaixo. Outro ponto iluminado no artigo de Coutinho, e que repercute uma outra receita de negação da austeridade pela austeridade da Alemanha, foi o avanço dos extremistas políticos, inclusive na França do socialista Hollande, com o terceiro lugar de Marine Le Pen. Na Grécia, a situação é ainda mais complexa (não só na economia, mas também na política – quem influencia quem, já que são as desavenças políticas que estão inviabilizando um governo de coalizão, sem o qual a crise econômica só tende a se agravar?), pois tanto a extrema-esquerda (com o segundo lugar do Partido Syriza) quanto a extrema-direita (com o quarto lugar do Partido Aurora Dourada, de clara orientação neonazista) saíram fortalecidos na última eleição. Esse avanço do extremismo, juntamente com outros fatores, fazem Coutinho farejar um retorno aos anos 1930, com a sucessão de crise econômica aguda; que abre espaço para discursos extremistas sem qualquer compromisso com a governabilidade, pois nunca foram vidraça, só pedra; que abre espaço para uma escalada de conflitos. Para mim, trata-se de um diagnóstico possível, porém ainda prematuro. Existe uma clara comparação entre a gravidade da Crise de 2008 e a gravidade da Crise de 1929. Isso se deve ao fato de que a Crise de 2008 é a mais parecida com a de 1929 dos últimos 35 anos, pois se equipara a esta tanto em centralidade quanto em impacto, diferentemente do Crack de Wall Street, em 1987, que ocorreu no coração do capitalismo, mas teve menor impacto na economia; e das crises econômicas dos anos 1990, que tiveram grande impacto na economia, mas ocorreram fora desse coração, visualizado na Tríade de Kenichi Ohmae (EUA-Alemanha-Japão), começando no México e se espalhando por Ásia, Rússia e Brasil para acabar no desastre argentino de 2001. Assim, dois fatores fazem com que o diagnóstico de Coutinho tenha que ser considerado: 1) as semelhanças de centralidade e impacto entre as duas crises; 2) o fato de que a Crise de 2008 ainda não foi totalmente superada (estamos em 2012!!), não dando para dizer se já chegamos no fundo do poço. Pior é se no fim do poço, ao invés de uma mola (como pregam os otimistas), nos depararmos com um fundo falso. O fato é que não dá para saber o que está depois da curva. O que Coutinho vê é a ascensão dos extremismos políticos e suas conseqüências nefastas. O quadro, para mim, é um pouco mais matizado, pois quando Coutinho apura o olhar para perceber os perigos (inegavelmente reais) do extremismo, ele perde de vista o quadro mais amplo e que emite sinais contrários. Por exemplo, a própria França, do extremismo de Le Pen, preferiu testar uma mudança menos drástica, porém significativa, elegendo um presidente socialista, o primeiro em 30 anos, desde Mitterrand (passando pela derrota de Lionel Jospin, em 2002). Na Grécia, a extrema-ESQUERDA superou a extrema-DIREITA (se é que essas diferenças são ainda tão cruciais – no caso de um partido neonazista, como o Aurora Dourada, ela é obviamente importante). Na Inglaterra, os trabalhistas liderados por Ed Miliband se fortaleceram nas últimas eleições, pressionado o neo-Tory David Cameron. Por fim, temos a emblemática vitória de Obama, que agora em 2012, tem amplas chances de reeleição contra o “homofóbico” Mitt Romney, a depender da recuperação econômica que, ainda tímida, já começa a aparecer. Se, por um lado, o extremismo político, apesar de claramente pertencer à fauna política, ainda é um animal exótico em democracias importantes, por outro podemos lançar também um olhar para os reflexos militares desses extremismos periféricos e as possibilidades de uma escalada de conflitos armados. Saindo dessas democracias consolidadas, onde essa possibilidade parece mais remota, podemos observar os países-baleias (BRIC) para saber se seu ímpeto de “botar a porta abaixo” para entrar a todo custo no primeiro mundo representa o perigo de uma sanha totalitarista. Dos BRICs, a Rússia e a China são as mais sérias candidatas ao posto de Superpotência Totalitária. Apesar de Putin (ex-KGB) representar uma direita militar, a Rússia tem eleições formais (questionáveis pelo povo, mas não abolidas pelo governo) e não há ocupação militar russa em outros países (coisa que os EUA, a quem ninguém acusa de ser totalitário, faz há anos no Afeganistão e no Iraque, liderando uma “força internacional”, ironizada por Michael Moore em “Farenheit 9/11”). Já a China, poderíamos dizer uma esquerda igualmente militar, se não é uma democracia igualitária, também não é o Reich totalitário (há trabalho desumano – que existem mesmo nos rincões do Brasil, mas não campos de concentração para indesejáveis; há influência política regional – como EUA e URSS fizeram ao longo da Guerra Fria – mas não há ocupação militar; há fechamento para o mundo – que o diga o Google -, mas não a lá Coréia do Norte, como mostra o fato da China ser hoje uma das maiores exportadoras de estudantes do mundo. Como comentou o professor do INSPER, Sérgio Lazzarini, em bate-papo após uma de suas visitas à Salvador, as universidades americanas estão cheias de estudantes chineses, como ele pode constatar na sua temporada em Harvard. Apesar de temer mais um século sinocêntrico do que um século nipônico (como se cogitou nos bons tempos do Império do Sol Nascente), já que a cultura japonesa é calcada na solidariedade e no coletivo, enquanto a cultura chinesa é muito mais isolacionista (haja vista a individualidade socialmente autista dos chineses em seu dia-a-dia urbano) e antropocêntrica (haja vista seu modelo de desenvolvimento industrial, altamente predatório, reeditando um cenário digno dos romances de Charles Dickens ou das denúncias de Friedrich Engels). Uma postura não muito surpreendente para um país cujo nome significa “Reino do Meio”. De qualquer modo, ainda vivemos em um mundo multilateral onde EUA, Alemanha, Índia, Japão e Brasil, entre outros, dividem o cenário com o dragão chinês. Pelas primeiras palavras de Hollande, a França é uma peça prestar a traçar uma outra trajetória no tabuleiro geopolítico. É por isso que, onde Coutinho enxerga um naufrágio, eu ainda visualizo alguns botes salva-vidas, seja na complexidade em si da realidade européia, que não se esgota nos extremismos políticos, seja na multilateralidade de um século que, se não é mais americano, não é totalmente chinês. Ainda não. Ainda bem.